Ao Poste
É madrugada. O silêncio lá fora é de tal imensidão que um pássaro canta como gotas de água caem no meio do oceano. Sinto espaço, um desafogo que traz conforto. Ainda mal o sol raiou que o céu em tons cinzentos não percebe se é noite, nuvem, ou simplesmente nevoeiro. Ao fundo da planície uma estrada é povoada por carros. O seu zumbido é linha no horizonte. Não se mistura com o plano presente. É um som de outra era.
Começo a despertar. A noite trouxe algo diferente. Uma ideia. Esperar que ela floresça é o meu desígnio. Não sei se ela sempre viveu em mim e agora aflorou, se fui eu que assumi tal frequência que a deixo atravessar-me, vinda de outro lado qualquer. Pergunto se a posso chamar minha. Posso, e quero apenas, dar-lhe existência. Tê-la em meus braços, mãos, em todo o meu corpo que lhe possa conferir uma vida terrena. Não a minha; a dela. Não a quero influenciar. Apenas devo dar o que precisa para ser ela na sua verdadeira essência. Não lhe quero falhar. Afinal, a perfeição é feita de erros, o que é um ganho, não uma perda. O propósito da existência é tão somente fazer sentido. Nada mais. Isso em si é perfeição. Talvez então Deus seja perfeito. Por ser sentido. E o sentido dos homens é ascender a ser perfeito. Não sei se estarei certo. O erro faz parte do processo. Não queremos esterilidade, queremos direção. Isto será satisfação, reconhecer um justo propósito. Livre de sujidade, mas com as cicatrizes de um percurso.
Quero dar vida a esta ideia.
O sol começa a pôr-se. Deu meia volta completa num céu nublado que não se viu. Escondeu-se de tal forma por detrás dos montes e não sei se o tornarei a ver. A terra é dura, difícil de perfurar, oferece possibilidades finitas. Tem de tomar seu o sol que foi do céu. Existe todo um equilíbrio, feito em acordo, sobre quem deve ter o sol. Nunca se sabe quando esse balanço é rompido e quem o poderá fazer seu, permanentemente.
Entretanto, os pássaros recolhem ao ninho. É noite de descanso, de deixar a sujidade do dia para trás, e entregar-me ao conforto do meu leito. A noite oferece sonhos de encantar o tempo em que não vejo, onde os olhos cerrados encontram um refúgio merecido. O sol ilumina a terra onde assento e logo sinto a clarividência.
Ao dia pertence a ilusão do mundo real, das pessoas irreais, das ideias sem sentido iluminadas por um sol a céu aberto, sem perdão sobre este mundo. Na noite reside a paz, a terra de imaginar a ideia pura. Assim, consigo idealizar, alcançar mais limpo o pensamento dentro de mim. Ou, simplesmente, desfazer-me em transparência e canalizar o fluxo da energia que é invisível ao sol. Sentir partículas através de mim, convertidas numa fusão de pensamento livre e emoção.
Só posso esvaziar esta mente e o meu coração. Tudo o que flui precisa de um vazio para correr. Procuro livrar-me do que é sólido, pesado e ocupa espaço. Preciso vazio para alcançar o que é pleno através de mim. Preciso de um vazio.
Quando escrevo penso nela. Ela transporta-me para aquele mundo que é nosso, vou cheio de direção, para longe deste planeta incoerente. Encho-me de felicidade a pensar nela, na ideia da perfeição, de que tudo, afinal, faz sentido.
O sol continua a nascer. Raios de luz enchem de sombra os seres em meu redor. O que era silêncio vira caos. Sinto, imediatamente, saudade da noite, do sonho a meu lado neste caminho. Percebo agora porque custa acordar. Não que o canto dos pássaros não seja belo e cheio de propósito. Mas o acto é mais sujo do que a ideia. O sonho mais belo do que a sua concretização.
A conclusão que se apresenta é inevitável. Querer viver na perfeição sem sujidade é viver no sonho, eternamente adormecido numa noite escura, onde o nosso ser transmite a ténue luz que é invisível ao sol.
Mas, a vida pede mais de mim. Eu quero cantar, e para tal hei-de desafinar. A sujidade de uma vida diurna é inevitável. Quero provar a imperfeição do caos. Que este me marque tão profundamente para eu entender o que é ter sentido. De tal modo que o sol não ofuscará o meu brilho. Porque não ofusca o canto dos pássaros, que é de nobre chamamento. Melodias criadas nos salões dos palácios dos deuses, elas são. Existem com perfeição, não porque obedecem a uma qualquer ideia sonhada pelo homem, mas porque são providas de emoção, e direção.
A agulha da bússola do sentimento marca agora um novo rumo com clareza. É um chamamento. É um acordar da noite profunda para uma vida com caminho iluminado pela chama que é sentir. É um dever que inevitavelmente tenho de cumprir.
Pelo caminho, fez-se primavera, verão, outono e inverno. Impossível não pensar no mestre Kim Ki-duk. Talvez haja sabedoria a retirar deste ciclo vital. É preciso saber refletir. Tomar em nós o espelho dos outros, não apenas projetar neles aquilo que nós somos. O verdadeiro conhecimento está em nós próprios. É necessário olhar para o interior, com a íris que está por dentro, oposta à que todos vêem.
Foi um ano de emoções fortes, primárias e básicas. Viscerais. A alegria, a tristeza, a zanga e o medo são muito mais do que pensamos. São familiares aos mamíferos. São cimento antigo dentro de nós.
Comigo caminha esta ideia. Delineada em curvas divinas, esculpida no mais alto salão do Olimpo, ela encaixa perfeitamente na minha identidade. Se um dia ela pertenceu ao mundo exterior, hoje a nossa simetria é inquestionável. Somos metades do mesmo todo. Talvez seja isso a perfeição. Um encaixe. Talvez o sentido não seja uma direção, mas sim um propósito. Será, então, o caminho uma ilusão do tempo, e tudo o que é real e eterno é a aproximação, o encaixe, a cópula entre o ser e a ideia.
Talvez então a noite não seja tão pura e escura, porque existe a ténue luz do sonho que alimenta a realidade, e o dia não seja apenas sol e sujidade, pois a sombra provocada permite a permanência do sonho. Talvez seja possível, assim, idealizar e concretizar.
Se o mundo é visto segundo a vivência de cada um, este é o nosso sonho. A sobrevivência da espécie em comunhão com o planeta como propósito divino.
Tu, ideia pura e perfeita, és parte de mim.
Existe algo especial nesta transição, transferência do sol do reino do céu para o reino da terra, e vice-versa. Este acordo firmado no palácio dos deuses define o que é dia e o que é noite, luz e escuridão, sujidade e pureza. Mas este encaixe perfeito entre o ser e a ideia, duas metades diferentes do mesmo todo, só existe através de um plano feito de pequenas partículas invisíveis ao sol, que permitem a coexistência simultânea do dia e da noite. Esta camada invisível, chamada éter, é a casa do reino dos sonhos.
Esta noite sonhei com ela, outra vez. Pareceu tudo tão real, tão mundano. Igual aos meus sonhos diurnos, mas de uma estória bastante mais imaginada. Afinal, estava inteiramente dedicado ao sonho.
Não creio que sonhar seja fantasiar algo irreal. Pelo contrário, a matéria de que é feito o éter permite ligar a ideia, que é pura, ao meu ser, sujo feito de fazer. O sonho é então uma amálgama que permite a união da luz e da escuridão, estas duas metades tão semelhantes, cuja diferença é a essência do seu encaixe perfeito.
Na sua função de junção, o éter que atravessa os dois reinos, transporta um pouco do ser para a ideia, e da ideia para o ser. Assim, existe uma presença de luz na escuridão, e uma sombra no meio da luz. O equilíbrio é perfeito. O mundo só precisa permitir-se sonhar.
Ao fundo, na estrada que atravessa a planície ouço uma sirene, por entre o canto dos pássaros. É hora de despertar. O dia acordou cinzento. O meu corpo cansado, os músculos doridos de tanto caminhar pedem que eu abrande. O rumo foi traçado há quase um ano. Não faz sentido parar. Nós, que somos nós e porque somos nós, continuamos. Flutuando juntos e acoplados por permanência em pleno éter. Existe uma ideia que tem de ser concretizada.