Gata Espacial

Deolinda 

Aproveitei estes 15 anos em que o Januário tem estado no nosso novo planeta para estudar toda a informação que tem enviado a partir de lá. Já sou fluente em dois dos seus idiomas. Por enquanto é quanto baste.

O Januário deixou de comunicar. Compreendo que nesta fase de espera e separação, prefira estar em silêncio para aligeirar melhor a situação. Ao fazer a aproximação percebi porque ele disse que iria ser maravilhoso. O planeta está sempre em festa! Sejam bolas de fogo que rebentam na atmosfera e se dividem em mil estrelas, sejam bolas de fogo que rebentam no solo e dividem também o que lá estiver. O clima é sempre de celebração!

O planeta tem permanentemente uma vibração no ar que mexe comigo de uma forma primordial. Parece que nasci com esta frequência no corpo, de tal modo que não consigo parar. Certamente o Januário sentirá também o mesmo.

Começo a misturar-me com os nativos e a colocar em prática os idiomas que aprendi. O meu tom de voz parece exercer um fascínio enorme sobre alguns deles, não entendo porquê. Soa-me exatamente igual a todos os outros tons, não percebo o porquê de tanto cumprimento e elogio. Fará, possivelmente, lembrar algum dos seus líderes.

Os anos têm passado e não há forma de encontrar o Januário. A minha memória começa a falhar à medida que a atenção dispersa. É tão bom este planeta! Não consigo deixar de vibrar com a frequência que existe no ar. Entretanto, descobri um animal que me fez ver como intensificar o modo de sentir essa vibração. Chamam-lhe CB_F, ou “Cabra da Floresta”. Algo para recordar.

Estou aqui há já quase 30 anos e a vida corre como a água de um rio para o mar. Belo dia encontrei um certo ser misterioso, diferente do que tinha visto até agora. Resolvi lançar-lhe o anzol. Dirigi-me a ele e cumprimentei-o ao mesmo tempo que o olhei de alto a baixo:

  • Olá! Como te chamas?
  • Deus, ela é linda! — exclamei eu inadvertidamente quando este ser se aproximou de mim. Não percebi em que língua ela falou, mas a ligação foi forte e instantânea. Fiquei totalmente abismado com a beleza desta criatura! Algo inexplicável. — Mas… não me entendes?

Paralisia do sono 

Passaram 15 anos e pergunto-me se Deolinda já terá aterrado neste planeta. Sem antena para comunicar, a tarefa de a encontrar será mais difícil. Contento-me, pelo menos, com a certeza de já ter abandonado Fel. Sei como a magoa dar tanto de si, e ser atacada vilmente por aqueles que não conseguem aquilo que pretendem dela. Nem tudo pode ser dado a toda a gente. Vou defender sempre a sua essência e a sua alma, mas era minha função vir à frente desbravar terreno. Funcionamos como uma equipa funciona como unidade.

Com o passar do tempo aprendi a desenvolver a linguagem deste planeta. Uso já várias palavras diferentes, contidas em projeções agudas que soam muito semelhantes entre si. Acrescento um toque do meu ser vibrante para entoar cada frase de maneira particular, carregadas de emoção. O esforço de aprender novo vocabulário parece ter afetado a minha memória de alguma forma. Sinto que me tirou alguma energia.

O tempo tem passado de modo pouco perceptível. Sinto-me alheado de mim mesmo. A interação com os nativos deste planeta, e os seus senhores que os comandam, tem tido um efeito anestesiante. Pareço preparado para hibernar enquanto espero por ela. É tudo tão aborrecido e sem interesse. A minha alma começa a enjeitar o planeta. De tal forma que acordo frequentemente durante o sono com o corpo completamente paralisado e a mente aprisionada. Parece que estou a morrer. É aterrador. Talvez seja a alma a abandonar o meu corpo à sua sorte. A desorientação é total. Não me recordo do que vinha fazer.

Planeta Fel 

É por vibração que comunicamos no nosso planeta natal. As palavras derivam de ondas e não o contrário. Nunca disse a Deolinda o quanto a amo. Como a amo da mesma forma que me amo a mim próprio, e que deste amor só existe mais amor. Foi quando perdi o medo de a amar que me encontrei a mim mesmo, que vi quem eu verdadeiramente sou. Vi-me nela, como me vejo ao reflexo de um espelho. É um amor que não se explica, não é possível verbalizar, apenas vibrar. Esta ideia assusta quem nunca nos viu juntos. As semelhanças não são apenas físicas, elas vêm do mais profundo do nosso ser. Há quem diga que cometemos incesto em tom de brincadeira. Claro que sim, somos gémeos de alma.

Mas nem todos acharam brincadeira a esta nossa relação incestuosa. Por isso tivemos de abandonar o planeta Fel. Para fugir daqueles que não sabem amar porque simplesmente não conseguem amar. Apenas fingem amar ou até odiar. Há quem não tenha capacidade de sentir e só tenha aprendido a imitar a função emotiva de forma racional e possessiva. Agarram-se aos sentimentos que não conseguem verdadeiramente fazer fluir. Como se o amor fosse uma emoção que não se pode largar.

Terminada a minha viagem, só passados poucos anos comecei a emitir uns sons estridentes e agudos. De pouco serviam senão apenas para chamar a atenção.

Os anos foram passando e por algum motivo permaneci imune ao parasita ego que habita este planeta. Nunca me deixei seduzir por jogos competitivos que parecem atrair esse animal voraz e devorador. Não gosto do sentimento de perder, mas também nunca senti que tivesse ganho algo na realidade. Levo uma vida em harmonia e tudo passa por mim, como se eu não existisse. Alimento apenas a minha alma porque a alma habita o meu corpo numa relação de sinergia e comunhão. Eu sou a minha alma, mas a minha alma foi muitos antes de mim, e será mais ainda depois de eu morrer. São os ensinamentos do meu mestre, o Capitão F.. Sinto-me pleno no acto de dar e receber. Na partilha, não na conquista. Na transferência voluntária e natural, como que por vibração. Aqui tenho recebido muito pouco. O ego torna as pessoas egoistas e centradas nelas mesmas, sem noção do outro e do mundo à sua volta. Parece que é o instinto de sobrevivência destas criaturas, mas os animais domésticos que vivem com elas são exatamente o oposto. Existe algo muito errado neste planeta.

Sinto saudades da Deolinda. Pergunto-me se estará tudo bem, mas não quero focar-me na questão porque a dúvida corrói o pensamento. Falta pouco para ela chegar.

A viagem 

Viemos separados por 15 anos de diferença. Ela achou que seria bom eu ir à frente explorar o planeta que viria a ser a nossa nova casa. Eu concordei, claro. Vivemos em sintonia. Por isso mesmo a importância de ter um lar livre de influências negativas que perturbem a nossa paz. “Vai ser maravilhoso”, disse eu. Ela conhece tão bem o meu humor, desprovido de sentido em certas ocasiões. Foi a última frase que ela ouviu antes de aterrar no novo planeta. A antena das comunicações sofreu uma avaria na aproximação.

O planeta é uma verdadeira merda, habitado por uns seres perfeitamente estúpidos que vivem na dependência de um parasita que chamam “ego”. A subserviência destas criaturas a esse ser é de tal modo catastrófica que hipotecam todo um planeta e todas as outras espécies para servirem o seu amo. É preciso remodelar.

Quando me afasto dos aglomerados onde vivem essas criaturas, em direção ao planeta selvagem, começo a perceber porque motivo a Deolinda apontou virmos viver para aqui. Afinal, existe uma beleza extraordinária que me é estranhamente familiar. É difícil verbalizar, mas quando projeto a cara dela junto da cara de alguns seres deste planeta, as semelhanças são estrondosas, ao ponto de concluir que o nosso lugar é aqui mesmo. Vou chamar ‘melinos’ a esta família de seres. Serão os nossos mais fiéis companheiros. Ou talvez chamemos-lhes antes família.

A antena das comunicações parece ter avariado de vez. Vão ser 15 longos anos à espera de Deolinda. Será o tempo de aprender a comunicar neste novo planeta. A atmosfera rica em oxigénio parece afetar as cordas vocais da nossa espécie. Nada mais consigo fazer do que vibrar.